Friday, March 13, 2026

PASSAR DO TEMPO

Com o passar do tempo, comecei a me perder um pouco no próprio tempo. Não no tempo contado, em números e datas. Números são ruins, não servem pra contar vida, servem só pra dar um troco ou não se atrasar. Me refiro ao tempo que não se conta, ao tempo das histórias que acumulamos. Que é a mesma coisa, mas não é.

Por exemplo, quando foi que eu me tornei quem eu sou? Ou quando me tornarei? 

Será que eu estou me afastando de mim? Ou será que estou cada vez mais próximo de mim? 

Sim, eu sei que lá no fundo de mim, estou eu, mas ainda fico confuso sem saber se este eu é o que me reconheço, ou se já não era tão espontâneo, se eu me perdi de mim já na primeira lembrança. 

Talvez eu esteja me encontrando e estivesse perdido antes e, por isso, não seja tudo tão claro agora. 

Por um lado eu acredito que eu sou a pureza, a inocência, a esperança, o sonho. Por outro, acho que esse não era eu, era somente um início, pronto para definir a abertura para o meu futuro e me tornar quem sou, quem serei ou quem eu deveria ser.  Mas quem projetou a minha própria referência a ser alcançada? Quem definiria quando me tornei eu? Ou quando deixei de ser eu mesmo?

Quem nos torna nós mesmos são as vitórias e as derrotas? As alegrias e as tristezas? Ou as cicatrizes cortam e embaraçam quem somos e, justamente por isso, caminhamos para o fim?

E se eu não estiver nem me afastando e nem me aproximando de mim, eu estou sendo eu agora? Então, quem fui e quem estou me tornando?

Sei que sou um tempo imenso, imerso num universo que não é feito de mim. Mas, por outro lado, sou também esse universo imerso e completamente feito de mim. 

Se a mim mesmo eu devo os meus saberes e as minhas incapacidades, que espaço eu mesmo deixei para a liberdade do meu eu hoje? 

E se eu sou todos esses, como posso me reconhecer? Em que tempo posso me definir? 

Talvez eu seja a busca de mim, fora do tempo, correndo contra o tempo, tentando entender o que é o fim.


m.froes

17/01/2025

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