Friday, March 13, 2026

PARABÉNS PARA MIM

Parabéns para mim.

Hoje resolvi parar o tempo, o meu tempo, invulgar, apenas hoje. Amanheci pensando nos sabores da minha vida, minha trajetória, o quanto meu corpo, minha consciência, minha ignorância, minhas sensatezes e temperanças devem ao meu passado. O quanto que ele projeta as referências de todos ao meu redor sobre mim. 

E o meu futuro? Quanto de hoje alentará? De certo, carregará todas as marcas, mas com a leveza do tempo, fugaz, mas perene, sempre tentando contrapor o próprio tempo.

As dores são inevitáveis, recorrentes, mas regam nossa força, incentivam nossos sorrisos. Estes sim, mais intensos, fortes, assíduos e necessários.

O saldo do meu tempo é de gente, amor, calor e vida. É certo que muitas das ameaças do meu futuro têm como berço meu passado, integridade indispõe, mas não voltaria atrás um só dia. Mesmo os desacertos se fundaram em honra, seriedade. 

Sempre estive na hora certa e no lugar certo. Sigo na hora certa e no lugar certo. Estou no meu lugar, no meu tempo. Sempre com os meus, sendo o deles também. 

Para o futuro, sigo oferecendo meu nome e sobrenome. E que ele siga me trazendo sorrisos, vida, gente e dores, porque sem cicatrizes não há empatia. 


26/10/2023

PASSAR DO TEMPO

Com o passar do tempo, comecei a me perder um pouco no próprio tempo. Não no tempo contado, em números e datas. Números são ruins, não servem pra contar vida, servem só pra dar um troco ou não se atrasar. Me refiro ao tempo que não se conta, ao tempo das histórias que acumulamos. Que é a mesma coisa, mas não é.

Por exemplo, quando foi que eu me tornei quem eu sou? Ou quando me tornarei? 

Será que eu estou me afastando de mim? Ou será que estou cada vez mais próximo de mim? 

Sim, eu sei que lá no fundo de mim, estou eu, mas ainda fico confuso sem saber se este eu é o que me reconheço, ou se já não era tão espontâneo, se eu me perdi de mim já na primeira lembrança. 

Talvez eu esteja me encontrando e estivesse perdido antes e, por isso, não seja tudo tão claro agora. 

Por um lado eu acredito que eu sou a pureza, a inocência, a esperança, o sonho. Por outro, acho que esse não era eu, era somente um início, pronto para definir a abertura para o meu futuro e me tornar quem sou, quem serei ou quem eu deveria ser.  Mas quem projetou a minha própria referência a ser alcançada? Quem definiria quando me tornei eu? Ou quando deixei de ser eu mesmo?

Quem nos torna nós mesmos são as vitórias e as derrotas? As alegrias e as tristezas? Ou as cicatrizes cortam e embaraçam quem somos e, justamente por isso, caminhamos para o fim?

E se eu não estiver nem me afastando e nem me aproximando de mim, eu estou sendo eu agora? Então, quem fui e quem estou me tornando?

Sei que sou um tempo imenso, imerso num universo que não é feito de mim. Mas, por outro lado, sou também esse universo imerso e completamente feito de mim. 

Se a mim mesmo eu devo os meus saberes e as minhas incapacidades, que espaço eu mesmo deixei para a liberdade do meu eu hoje? 

E se eu sou todos esses, como posso me reconhecer? Em que tempo posso me definir? 

Talvez eu seja a busca de mim, fora do tempo, correndo contra o tempo, tentando entender o que é o fim.


m.froes

17/01/2025

CONSUMAÇÃO

Quando pensei, Que era amor, era minha vez, Me entreguei, o enredo ensaiei, Tinha chegado enfim para mim. 

Me enganei,

E de mentiras me embriaguei,

Agarrei-me aos braços da insensatez,

Busquei os amparos do botequim.


E na dor da tristeza do meu violão,

Na cadência sem fé da marcação,

Da cuíca chorada, arrastada no camarim,

E dos soluços amargos do tamborim.

 

Surge o improviso, a rima e a canção,

No teu sorriso a nota, a letra e o refrão,

No teu olhar o compasso, o arranjo e harmonia,

Na minha voz calor, aplausos e alegria.

 

Lindo

É cantar,

É saber,

É poder dividir,

 

É sorrir,

É chorar,

É estar junto a ti, 

É sentir o que a vida tem de melhor

 

Lindo

É cantar,

É saber,

É poder dividir,

 

É sorrir,

É chorar,

É estar junto a ti, 

É dormir ao seu lado e ser mais feliz


25/06/2014

m. froes


Sunday, December 06, 2020

RESPOSTAS

E quando o silêncio é quebrado, seu íntimo revirado, sombras do presente no passado. Parece divertido? Perdi meus versos ao acaso, levados pelo vento, na janela, descaso. O sentido natural do tempo, seu peso, seus traços. Na viagem, já não ouço seus passos. Passa-tempo em dias escassos, curando falsos abraços, diletantismo, paço.
E quando apagarem-se as luzes, aposta-se na fé a esperança, quem conhece a dança? Pedirá a nota a quem sempre termina devendo resposta.
Verdade assim posta, cura-te das dores com os próprios temores. O tempo não esperará a vontade, submisso a vulnerabilidade. Metade, amizade, necessidade?
Nas rimas, a lealdade, procuram e respondem não só quando precisam, mas por verdade.


m.froes

06/12/2020

Saturday, October 24, 2020

ENSAIO SOBRE O TEMPO

Aprisionado em olhar sereno, na estupidez de um eterno aprendiz, busco em goles algum argumento, que sentencie a culpa do tempo, dando voltas em inúteis pensamentos.

Uma corrida sem sentido, que a chegada no tempo se encerra e, no fim, até mesmo as nossas dores, enterra. Por consolo ou falsa pena, chora e lamenta.

Me entrega o incondicional, travo uma batalha perdida, sendo imperfeito, ingênuo, mortal. Ergo a cabeça e sigo, mas a cada passo me vejo em maior conflito. A quem reivindico quando de mim é tirado o sobrenome? Usado, como fosse apenas emprestado, perdendo o que mais faria sentido na vida, de exemplo a um mero cargo, comprado. 

Não culpo mais os que desistem do tempo, quando o orgulho se esvai. Aceitam a sentença de culpa, perdem as forças na luta, apenas choram por haver outro “pai”.

Sussurro ao tempo, entregue à sorte, que zombe dos meus dias, até a minha morte, mas não mais da dor, como alento. De herdeiros, bastam os meus pensamentos.

Me prende no pouco que deveria me pertencer, mas me libertará e, neste dia, eu esquecerei dele, mas ele não poderá me esquecer.

m. froes 

25/10/2020

Tuesday, June 23, 2020

O tempo vai passando, vamos envelhecendo e amadurecendo. Costumamos ouvir dos nossos pais, avós e mais velhos o batido clichê que o melhor da idade é a maturidade. É conseguir ver as coisas de outra forma, lembrar de atitudes e decisões tomadas quando mais novo e pensar... achamos besteira até começarmos, de fato, a entendere e sentir.
“Ahh, se eu pudesse dar um conselho a ele...”. A serenidade, a clareza, as certezas, tudo muda bastante. Não diria que eu mudaria todos os erros, afinal, nosso tecido nada mais é do que uma costura do nosso passado com os nossos sentimentos. Aquele “jovem”, se a minha idade me permite chamá-lo assim, me fez ser quem sou hoje, mesmo que sem querer, sem saber. Meus acertos e aplausos lembro com felicidade e orgulho, porém poucas vezes. Mas os meus erros e fracassos não passam um dia sem me revisitar. Eles me fazem seguir em frente, repensar, por mais que em público ainda haja dificuldades em alguns pontos, lá no fundo há arrependimento, há mudança de atitude. Mas há coisas que cresceram em mim, que foram alimentadas, que me perturbam cada dia mais. 

Certa vez, numa mesa de bar com amigas queridas, ao tom de uma incrível cerveja gelada, ouvi delas relatos de assédios dos mais variados. Numa loja de departamentos, com 12 anos, uma delas foi assediada por um vendedor. Talvez o fato de eu ter uma filha tenha feito aquilo me tocar ainda mais, mas a sensação inevitável é: “em que mundo eu vivia? Como é possível eu descobrir isso, dessa maneira, a essa altura da vida? Que tipo de redoma me construiu? Em que mundo paralelo eu cresci?”. O pior é saber que o mundo foi o mesmo. Cego cuidadosamente num esforço coletivo. Foi uma noite em claro, um choro causado por uma mistura de culpa, por mais que eu não tivesse culpa, mas sentia que tinha. 

E todas as brincadeiras e ofensas que fiz, sem nem saber, a colegas de escola, que deviam ter receio de ir à lojas de departamento, ônibus, rua e colégio? Medo de encontrarem vendedores insaciáveis, mas também de gente como eu, com posturas e discursos impregnados de uma carga ofensiva, que jamais entenderei, de fato, o mal que podem fazer. 

E todos colegas que precisavam esconder a própria essência, controlar cada movimento, cada gesto, para gente como eu não apontar o dedo e rir, ridicularizar, porque a capacidade de amor deles era diferente da minha? Quantos pagaram com a vida, mesmo que ainda vivos e sem perder a vida, também por minha culpa? Por palavras inconsequentes minhas?

Quantos laços de vida precisarei perder para conseguir mudar ainda mais? Para ser capaz de não rir do que tanto ri? Para ser capaz de enfrentar quem não quer corrigir? Sair da posição de privilégios e defender o óbvio tem um custo necessário. Afastamos muitos que nos acompanham, parte da nossa história, mas nos aproximamos de nós, dos outros. 

Que quem crio não veja cores, não veja gêneros, não veja orientação. Que apenas veja. Que seja melhor do que pude ser. Que não descubra tão tarde o óbvio. Que nem precise descobrir.

De que serve tudo, se não podemos ser completos? Somos a nossa própria construção, somos o que vemos, o que sentimos, o que falamos. Mas somos também o que não queremos ver, o que escolhemos não sentir e o que silenciamos.

m.froes

24/06/2020

Sunday, April 26, 2020

ENSAIO DA VIDA

Fala da tua dor, tudo que não cantou, serena e incerta. Usa a minha voz, que agora cala, no silêncio do que sobrou, da minha calma. Traduz em memória, esgota a trajetória, que sequer foi iniciada. O tempo tratou de apagar, passou antes de parar. Tão longe quanto a fumaça, tragada a cada nota tocada, bebida a cada palavra valsada. Talvez não fosse valsa, só enredo de quase nada, versado aos ouvidos de ninguém, rima inacabada. De longe vejo a caminhada, na estrada que não alcancei.  Não há mais poetas, as ruas sonham caladas, amarguram a própria esperança, “a cidade abandonada”. Fecha os olhos, respira a tua alma, escuta nossa voz, se acalma.

m.froes
27/04/2020

Wednesday, March 25, 2020

PAUSA

Da licença ao retorno, apenas silêncio, uma pausa, versos que rimaram vida com alma! Embriagando-me dia a dia, do vazio às palavras. Calar-se em carne, escondendo-se em incapacidade. Quisera ter o dom das palavras, assim como a sua amizade, confidenciando-as a verdade. Não por precisar, apenas por necessidade. De que vale tudo, se não a entrega à arte? Não há como ser, sem doses inacabáveis de subjetividade. 
Apenas uma janela nua, livre, em contínuo retrato, alguns goles de vida, força e fragilidade. 
Preenchendo o peito sem regras, métricas, pretensão, tão somente por diversidade. Delírios pagam-se por si, valem a própria vida, a própria liberdade.
Não alteraria cada caminho feito, ainda que por cuidado, não evitaria, mesmo que soubesse. Não nascemos para compreender, mas para sentir, ser. 
Orgulho-me de cada verso escrito, de cada escrita imperfeita, de cada palavra não dita, cada falha cuidadosamente mal pensada. Tornaram-me quem sou, minha verdade.
Levarei meu tempo para cada poesia, cada eventualidade. Que cada alma possa ter suas possibilidades. Meus erros serão de todos, divididos em versos, não há facilidades.
Não há segunda chance, o passado veste-se em futuro. Talvez não haja o por quê, do contrário, para quê seriam as metáforas?
Cada segredo pertence a uma alma. Cada alma pertence a um segredo. Cada um em seu tempo. Cada tempo em seu momento. Cada momento em sua alma. 

m.froes
25/03/2020

Tuesday, August 06, 2019

ABRAÇO

No dicionário, um substantivo: abraço.
Mas vai além de um simples entrelaço,
Junção de mais de um braço.

É numa folha em branco, um traço,
No sufoco da alma, um espaço,
O respiro do amor, já tão escasso,
Ou até uma aventura, devasso.

Pode ser o começo, um primeiro passo,
Ou um recomeço, o desembaraço,
Um alívio, somente um despacho,
Ou até um adeus, estilhaço...

A saudade que já está por vir, abriga-se num abraço,
Na eminência da perda de uma parte de si, um pedaço.
Guarda o perfume crasso que se vai, um humilde paço.

Quantos anos podem caber num abraço?
Capaz de desatar o nó de qualquer laço,
De lapidar qualquer engasgo, um chaço,
De dizer o que não se diz, enlaço.

Na esperança realizada cabe um abraço, 
Ou na falta da esperança, cansaço,
Na comemoração daquele golaço,
Ou na pior derrota, no fracasso,
E para enfrentar o medo, um rebraço.

Se é mesmo substantivo esse tal de abraço,
É de substantivo então que respiro, vivo e me faço.

m. froes
14/07/2019
A cada dia, no presente de agora,
Revisito a palavra, rima de outrora,
Alimentando também meu passado,
Cobrando de mim, lado a lado.

A palavra que alimenta a alma,
Dançando em versos, na palma,
É aquela que não respeita o mestre,
Costurando a própria métrica que veste.

Quisera eu ter nascido poeta,
E a cada partida, a palavra certa,
Ilustrar o sentido da caminhada,
Antes de viajar, conhecer a estrada.

Mas a linha, por vezes, foi pesarosa,
Mesmo quando em versos, em prosa,
Palavras em chamado sem sobreaviso,
Improvisando a própria vida com improviso.

No vazio da completa indisciplina,
Regando a ignorância com adrenalina,
Cumprindo minha íntima regra,
Fingindo para mim ser um poeta.

Resignificando adiante as palavras,
Envolvendo em rimas as escalavras,
Desenhando novamente os desvios,
Reescrevendo atento os avios.

m. froes
08/05/2019
Podem até desligar o nosso som,
Transformar nossa lágrima em algoz,
Só que não calarão nossa voz,
Fazer história sempre foi nosso dom.

Podem tentar sujar nossa trajetória,
Mas não podem apagar nossa memória,
Se for para acender outra vela,
A cada uma acesa, um novo verso se revela.

Pra ser feliz não precisamos de anuência,
O nosso samba sempre foi de resistência,
Na sua identidade sempre teve a nossa digital,
Da sua ignorância, fazemos nosso instrumental.

A cada “Silva” que vocês nos levam,
Nosso enredo e andamento se elevam,
Ecoando nos peitos do nosso povo,
Entoando a queda de vocês de novo.

Pode tentar sujar nossa trajetória,
Mas não pode apagar nossa memória,
Se for para acender outra vela,
A cada uma acesa, um novo verso se revela.

m. froes
27/04/2019