Tuesday, August 06, 2019

ABRAÇO

No dicionário, um substantivo: abraço.
Mas vai além de um simples entrelaço,
Junção de mais de um braço.

É numa folha em branco, um traço,
No sufoco da alma, um espaço,
O respiro do amor, já tão escasso,
Ou até uma aventura, devasso.

Pode ser o começo, um primeiro passo,
Ou um recomeço, o desembaraço,
Um alívio, somente um despacho,
Ou até um adeus, estilhaço...

A saudade que já está por vir, abriga-se num abraço,
Na eminência da perda de uma parte de si, um pedaço.
Guarda o perfume crasso que se vai, um humilde paço.

Quantos anos podem caber num abraço?
Capaz de desatar o nó de qualquer laço,
De lapidar qualquer engasgo, um chaço,
De dizer o que não se diz, enlaço.

Na esperança realizada cabe um abraço, 
Ou na falta da esperança, cansaço,
Na comemoração daquele golaço,
Ou na pior derrota, no fracasso,
E para enfrentar o medo, um rebraço.

Se é mesmo substantivo esse tal de abraço,
É de substantivo então que respiro, vivo e me faço.

m. froes
14/07/2019
A cada dia, no presente de agora,
Revisito a palavra, rima de outrora,
Alimentando também meu passado,
Cobrando de mim, lado a lado.

A palavra que alimenta a alma,
Dançando em versos, na palma,
É aquela que não respeita o mestre,
Costurando a própria métrica que veste.

Quisera eu ter nascido poeta,
E a cada partida, a palavra certa,
Ilustrar o sentido da caminhada,
Antes de viajar, conhecer a estrada.

Mas a linha, por vezes, foi pesarosa,
Mesmo quando em versos, em prosa,
Palavras em chamado sem sobreaviso,
Improvisando a própria vida com improviso.

No vazio da completa indisciplina,
Regando a ignorância com adrenalina,
Cumprindo minha íntima regra,
Fingindo para mim ser um poeta.

Resignificando adiante as palavras,
Envolvendo em rimas as escalavras,
Desenhando novamente os desvios,
Reescrevendo atento os avios.

m. froes
08/05/2019
Podem até desligar o nosso som,
Transformar nossa lágrima em algoz,
Só que não calarão nossa voz,
Fazer história sempre foi nosso dom.

Podem tentar sujar nossa trajetória,
Mas não podem apagar nossa memória,
Se for para acender outra vela,
A cada uma acesa, um novo verso se revela.

Pra ser feliz não precisamos de anuência,
O nosso samba sempre foi de resistência,
Na sua identidade sempre teve a nossa digital,
Da sua ignorância, fazemos nosso instrumental.

A cada “Silva” que vocês nos levam,
Nosso enredo e andamento se elevam,
Ecoando nos peitos do nosso povo,
Entoando a queda de vocês de novo.

Pode tentar sujar nossa trajetória,
Mas não pode apagar nossa memória,
Se for para acender outra vela,
A cada uma acesa, um novo verso se revela.

m. froes
27/04/2019