Mais um dia de trabalho chegando ao fim, um engarrafamento bom para o mau humor e, antes de chegar a sua casa, uma promessa para si: "hoje vou dormir cedo!". Chegando em casa, você retarda os planos por alguns minutos para poder checar as redes sociais. Logo na primeira página, eis que aparecem várias postagens com fotos do pequeno elemento recém-chegado. Aquele amigo seu do fundão da sala agora é pai! "Putz, nunca imaginei ele desse jeito, paizão, bobão... isso era um vagabundo de marca maior! A família vivia me ligando pra eu dar uns conselhos! Agora olha lá, até trabalhando ele está! Também, ele que não corra atrás agora. rs". Seguindo a sua navegação, você vê que outro amigo agora está casado. Sim, de aliança e tudo! "Rapaz, esse cara nunca foi de uma mulher só e agora bota foto de coração com a mão na internet? Hm... tem pai que é cego!"
Não são necessários muitos minutos até que você perceba que o time dos solteiros está reduzindo de maneira assustadora no seu círculo de amizades. Num jogo, seria praticamente um WO. Aí se instala o início de um conflito, bem ilustrado por um pensamento, que geralmente vem em voz alta: "puta que pariu, to ficando velho...". Nessa hora, a melhor coisa a se fazer é tomar alguma bebida para relaxar e esquecer essa besteira de idade! Chegando na cozinha você pega aquele vinho argentino bacana que guardou "pelo menos uma coisa que preste esses hermanos fazem, né?", abre, toma uma taça e se sente satisfeito. Pois é, permita-me então te afligir um pouquinho mais: cadê aquele garotão que não abria mão de uma bela cerveja? Uma não, várias! Até mesmo se cedesse ao vinho, que fosse uma, duas, três garrafas! Pois é, amigo, a melhor bebida já deixou de ser a cerveja. Acredite, agora ela dá dor de cabeça e ressaca! Por mais que você beba pouco. Ora, veja bem, até as farras não são mais as mesmas! Tantas lembranças boas das bebedeiras e festas, mas, sem saudades. Você se sente mais amadurecido, sem muita paciência para barulhos e multidões. A melhor saída é para um restaurante bom, um filme ou um teatro. Companhia? Um casal de amigos, de preferência. Vale ressaltar que a noite foi feita para dormir e, convenhamos, 22:00h de sábado é tarde. Além do mais, nada como um café da manhã saudável bem cedinho, seguido de uma praia, né não? E para isso, há que dormir cedo, principalmente se você já saiu na quinta e na sexta. Agora, sair 3 dias num final de semana é estafante. É preciso um tempo para o sofá de casa repor as suas energias.
Bom, um feriadão se aproxima e, como um jovem nato que és, para provar a si mesmo que a adolescência ainda corre a mil por hora nas suas veias, você marca uma viagem para uma pousada/casa no interior ou numa praia longe da cidade! Ok, vamos aos fatos, você está indo com a (o) sua/seu namorada (o) e mais dois ou três casais de amigos. Um dia de conversa fiada, a beira da piscina, um jantar feito a oito mãos na cozinha e, tão logo o sol vá embora, cada um já estará no seu quarto trancado. E o pior, você está adorando isso! Não é lá tão inconsequente como costumava ser, concorda? As férias então... pera, férias? Um lugar bem distante e tranquilo. Privacidade em primeiro lugar. Festa? Ixe! Ginge!
Já no seu quarto, numa conversa sobre a vida, você e sua/seu companheira (o) começam a falar dos sonhos... os grandes sonhos de conhecer o mundo, pessoas diferentes, tribos, ruas, cursos etc. perderam o posto para planos de trocar o carro, financiar um apartamento e mais estabilidade no trabalho, de construir uma vida. A (o) companheira (o) é exatamente o que você quer para o seu futuro. Perder? Jamais... tá louco? Quem não achou alguém ainda, seguramente já busca com mais critérios e, digamos, um tanto desesperado. Ok, soa pesado, vamos usar preocupado. Não dá mais para ficar errando. "Te amo" não amedronta mais e nem arranha a garganta. Passa a ser bom de dizer e de ouvir, apesar de sair pela primeira vez com mais dificuldade. Na verdade, agora se diz com plena propriedade e certeza do significado.
Feliz com o seu final de semana super jovem, descolado e agitado, você planeja tudo exatamente igual para outros feriados, mas, com alguma frequência, você precisa abortar os planos dos sábados e domingos, ou até mesmo atrasar no trabalho. Muitos daqueles amigos de nossos pais e pais de amigos, que víamos e lembrávamos com tanta força, nos deixam de vez... aquela geração está cada vez menor em número... por outro lado, você vê aquele molequinho que aprendeu a andar no playground do prédio do lado, filho de um tio que você não via há muito, dirigindo um carro para chegar ao cemitério! Em poucos minutos de conversa, ele revela que está cursando uma faculdade! Completamente inaceitável! E você se pega repetindo exatamente o que os tiozões da geração em extinção diziam e que te tirava do sério: "como você está grande! Você sabia que te vi engatinhar?", e a cara dele se assemelha bastante com a sua anos atrás, no estilo: "putz, o que é que esse velho quer? Sou grande, rapaz! Esquece isso!".
Mesmo que ainda divida o teto com os seus pais, você é um ser independente e, como tal, precisa ter muito cuidado com os seus atos. Você responde por todos eles já há algum tempo. Em nome da razão, segurar as emoções (todas elas: raiva, ódio, amor, alegria, tristeza...) paradoxalmente passa a ser mais fácil, mas, mais difícil! Aliás, independência inclui pagar as contas sozinho também, e elas vem aos montes! São uma espécie que vive em sociedade e ataca em bando! Melhor nem falar muito, porque atrai...
Para esquecer das contas e das emoções reprimidas, você resolve fazer compras! Ora, esse tanto de trabalho e esse dinheiro tem que servir para mais alguma coisa além de te defender dos ataques periódicos das contas! Mas, você já não consegue mais escolher as coisas somente pelo preço. Importa mais a qualidade. Sim, você está se tornando um tanto ranzinza. Até mesmo para ir a um restaurante, quase sempre o mais importante é comer bem, mesmo que te custe horas extras de trabalho no dia seguinte. Mas, falando em comida, é preciso muito cuidado. Agora são meses para perder um pouco de barriga e horas para engordar o dobro.
30 anos sempre foi uma idade para irmãos mais velhos e tios, algo inatingível, de velhos (menos para avós. Esses sempre parecem já ter nascido com 70 anos), completamente fora da sua realidade e cogitação, até você se dar conta de que passou muito rápido! Que já está com um pé e meio lá! Pois é, ex-tão-jovem, o tempo passa até mesmo para você. Você se recrimina por tudo isso e fica preocupado, se achando velho! Até descobrir que até mesmo os melhores companheiros de copos e loucuras também estão pensando exatamente o mesmo que você. É, vamos combinar, não é tão mal assim, é?
Chame de velho aqueles que já estão chegando nos 40 e que, por consequência, têm a barriga maior e mais enrijecida que a sua, que os pés de galinha já são mais evidentes que o seu ou ainda que os filhos já são mais velhos que os seus e arrumam paqueras nas ruas. 40 anos, que coisa de velho! Aff! Ainda bem que isso não faz parte da nossa realidade!
m.froes
25/09/2012

